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na cama com edward norton

quem casa sou eu!

vai descer?...não, o ônibus está parado!

apressado come cru

a burrice passa com o espirro

fita cassete, o cacete!

 

 
Apressado Come Cru
 
de Viviane Fuentes
 
       O farol fecha, ouve-se a freada brusca. Dentro do carro, som alto, o palavrão ziguezagueia “Que caralho de cidade é essa?” O eco estridente poderia perfurar tímpanos, abafados por vidros fechados. “De novo!

       Farol vermelho, caralho!!” Entre amálgamas nicotinados, a ira se cala. O motorista conclui: “Sempre que tenho pressa, os faróis estão vermelhos.” As pupilas esbugalhadas pilotam no automático e vidram no pára-brisa - ...mas sem danos.

      Ele trafega algumas quadras o alívio da ausência de luz ruiva-verde-amarela e freia lentamente. O dia a pouco despertou, o sol tem pouco que raiou....Um táxi buzina afoito atrás dele e o ultrapassa rasgando a primeira marcha.

       “O que se passa pela a cabeça desses taxistas de merda?”, regurgita, pois apenas parou para atravessar com segurança o cruzamento. O motorista é apressado, mas não imprudente.

       Os carros estão lado a lado: o carro de passeio (ele) e o carro de trabalho (o taxista). Sem pestanejar, ele dá o troco, abre o vidro, bota a língua pra fora e ladra:

        “Vai comer sushi!!”

       O taxista ouve e, sem entender, olhos de anchova, o tacho paira em sua cara: “Mas o que esse corno quis dizer com isso?”, e prossegue agora mais pensativo.

       Os restaurantes nem abriram, as portas das padarias ainda estão sendo alçadas...“Comer sushi? Por quê? O que tem a ver?” Afinal, o taxista detesta peixe cru, gosta mesmo é de uma boa picanha – e mal passada e sangrando.

       Chega a esquecer porque tinha pressa porque buzinou porque ultrapassou tão cortante o otário no cruzamento... Tenta relembrar...

       Tinha que pegar um cliente atrasado para o aeroporto? Havia alguma mulher parindo em seu banco traseiro? Uma incontinência urinária assolava o corpo tão jovem?

       Não. Apenas o condicionamento de que, em metrópoles, só existe a pressa, e a pressa é um sentimento e é tão normal como respirar, mesmo em dias calmos. Lembrou-se do slogan de quando era criança:

       “Tostines vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais?” , e fez o trocadilho, sem querer fazer piada:

       As cidades grandes são estressantes por nossa causa, ou elas nos estressam por serem grandes demais à nossa minúscula paciência? Refletiu, refletiu e concluiu: “Tudo faz parte do ecossistema.”

Depois do minuto de sabedoria, sem ter que assistir aos programas matinais de TV, dirigiu com mais calma e seguiu. Mas o outro motorista parou. Luz vermelha? Luz vermelha. Luz vermelha novamente!

       Desta vez, o gasômetro alertou que o combustível havia secado! Sabe Deus onde estava o babaca do motorista. Ele estava encrencado e nem dominava o bairro.

       Esmurrou o volante até o dedo dizer “dói” - e justamente o mindinho de unha encravada! Saiu do carro e foi buscar o combustível sem checar as travas das portas, andou cinco quadras tortas, chutou sacos de lixos mortos, subiu ladeiras estreitas cheirando a mijo e teve vontade de vomitar assim que encontrou um posto.

       Fechado. Putz! Cravou a unha no chifre, pensou em respirar fundo, mas embebido da raiva que estava, foi impossível lembrar que havia cursado a Socila... O sol já está na metade do céu, pediu informações, gargarejou o fel e se orientou...

       Duas horas mais tarde retorna ao ponto de partida e carrega consigo duas garrafas grandes de guaraná enrubescidas do líquido metanol...Pensa que se perdeu, o carro não está onde ele pensava estar:

       “Onde o maldito estaria?” Reconhece o ideograma, talvez um haikai, da placa de um estabelecimento, e tem a certeza de que era lá mesmo onde havia deixado seu carro e, agora, apenas ele curvado com as olheiras tocando os joelhos...

       Carros passam, bicicletas na ciclovia inexistente brigam por espaço com ônibus folgados que circulam em duas pistas. Funcionários saem das firmas, seus tickets nos bolsos, prontos para a bóia. Sim, ele está no lugar certo, seu carro é que foi roubado!

       Ele joga o peso do corpo na sarjeta e pensa alto: “O que é mesmo que eu tinha pra fazer hoje?” Está desempregado e não tem entrevista de trabalho. Não é casado e não tem que levar crianças na escola...

       Um outdoor em branco surge à sua frente e flutua... Não consegue recordar porque acordou tão cedo porque já estava na rua....

       A fome rosna no estômago, o celular apita: a bateria está acabando. Antes de ir à delegacia, acionar o seguro, levanta-se, lê o ideograma do restaurante que não compreende, lambe os lábios, pensa no peixe serra com tataki, respira fundo e sorri.

       Momentos depois, com os pés descalços, ele está manuseando palitinhos, enquanto a atendente de origem gueixa enche o seu copo de saquê e sorri.

       Por enquanto, adiou o que tinha para fazer, se é que tinha. Não se lembra mesmo! Abocanha o peixe entre tragadas de gengibre e de uma coisa ele está seguro: Apressado come cru e ele e adora sushi!! (FIM)

 

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