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O farol fecha, ouve-se a freada brusca. Dentro
do carro, som alto, o palavrão ziguezagueia “Que
caralho de cidade é essa?” O eco estridente
poderia perfurar tímpanos, abafados por vidros
fechados. “De novo!
Farol vermelho, caralho!!”
Entre amálgamas nicotinados, a ira se cala. O
motorista conclui: “Sempre que tenho pressa, os
faróis estão vermelhos.” As pupilas esbugalhadas
pilotam no automático e vidram no pára-brisa -
...mas sem danos.
Ele trafega algumas quadras o
alívio da ausência de luz ruiva-verde-amarela e
freia lentamente. O dia a pouco despertou, o sol
tem pouco que raiou....Um táxi buzina afoito
atrás dele e o ultrapassa rasgando a primeira
marcha.
“O que se passa pela a cabeça desses
taxistas de merda?”, regurgita, pois apenas
parou para atravessar com segurança o
cruzamento. O motorista é apressado, mas não
imprudente.
Os carros estão lado a lado: o carro
de passeio (ele) e o carro de trabalho (o
taxista). Sem pestanejar, ele dá o troco, abre o
vidro, bota a língua pra fora e ladra:
“Vai
comer sushi!!”
O taxista ouve e, sem entender,
olhos de anchova, o tacho paira em sua cara:
“Mas o que esse corno quis dizer com isso?”, e
prossegue agora mais pensativo.
Os restaurantes
nem abriram, as portas das padarias ainda estão
sendo alçadas...“Comer sushi? Por quê? O que tem
a ver?” Afinal, o taxista detesta peixe cru,
gosta mesmo é de uma boa picanha – e mal passada
e sangrando.
Chega a esquecer porque tinha
pressa porque buzinou porque ultrapassou tão
cortante o otário no cruzamento... Tenta
relembrar...
Tinha que pegar um cliente atrasado
para o aeroporto? Havia alguma mulher parindo em
seu banco traseiro? Uma incontinência urinária
assolava o corpo tão jovem?
Não. Apenas o
condicionamento de que, em metrópoles, só existe
a pressa, e a pressa é um sentimento e é tão
normal como respirar, mesmo em dias calmos.
Lembrou-se do slogan de quando era criança:
“Tostines vende mais por que é fresquinho ou é
fresquinho por que vende mais?” , e fez o
trocadilho, sem querer fazer piada:
As cidades
grandes são estressantes por nossa causa, ou
elas nos estressam por serem grandes demais à
nossa minúscula paciência? Refletiu, refletiu e
concluiu: “Tudo faz parte do ecossistema.”
Depois do minuto de sabedoria, sem ter que
assistir aos programas matinais de TV, dirigiu
com mais calma e seguiu. Mas o outro motorista
parou. Luz vermelha? Luz vermelha. Luz vermelha
novamente!
Desta vez, o gasômetro alertou
que o combustível havia secado! Sabe Deus onde
estava o babaca do motorista. Ele estava
encrencado e nem dominava o bairro.
Esmurrou o
volante até o dedo dizer “dói” - e justamente o
mindinho de unha encravada! Saiu do carro e foi
buscar o combustível sem checar as travas das
portas, andou cinco quadras tortas, chutou sacos
de lixos mortos, subiu ladeiras estreitas
cheirando a mijo e teve vontade de vomitar assim
que encontrou um posto.
Fechado. Putz! Cravou a
unha no chifre, pensou em respirar fundo, mas
embebido da raiva que estava, foi impossível
lembrar que havia cursado a Socila... O sol já
está na metade do céu, pediu informações,
gargarejou o fel e se orientou...
Duas horas
mais tarde retorna ao ponto de partida e carrega
consigo duas garrafas grandes de guaraná
enrubescidas do líquido metanol...Pensa que se
perdeu, o carro não está onde ele pensava estar:
“Onde o maldito estaria?” Reconhece o ideograma,
talvez um haikai, da placa de um
estabelecimento, e tem a certeza de que era lá
mesmo onde havia deixado seu carro e, agora,
apenas ele curvado com as olheiras tocando os
joelhos...
Carros passam, bicicletas na ciclovia
inexistente brigam por espaço com ônibus
folgados que circulam em duas pistas.
Funcionários saem das firmas, seus tickets nos
bolsos, prontos para a bóia. Sim, ele está no
lugar certo, seu carro é que foi roubado!
Ele
joga o peso do corpo na sarjeta e pensa alto: “O
que é mesmo que eu tinha pra fazer hoje?” Está
desempregado e não tem entrevista de trabalho.
Não é casado e não tem que levar crianças na
escola...
Um outdoor em branco surge à sua
frente e flutua... Não consegue recordar porque
acordou tão cedo porque já estava na rua....
A
fome rosna no estômago, o celular apita: a
bateria está acabando. Antes de ir à delegacia,
acionar o seguro, levanta-se, lê o ideograma do
restaurante que não compreende, lambe os lábios,
pensa no peixe serra com tataki, respira fundo e
sorri.
Momentos depois, com os pés descalços,
ele está manuseando palitinhos, enquanto a
atendente de origem gueixa enche o seu copo de
saquê e sorri.
Por enquanto, adiou o que tinha
para fazer, se é que tinha. Não se lembra mesmo!
Abocanha o peixe entre tragadas de gengibre e de
uma coisa ele está seguro: Apressado come cru e
ele e adora sushi!!
(FIM) |