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Vai descer?...Não, o ônibus está parado!
 
de Viviane Fuentes
 

         O dia vai muito bem. O mundo não está mal. O remédio faz efeito. Pensa Tina que, antes, ingeria apenas pastilha laranja, depois amarela, agora a azul seguida da vermelha. Tudo tarja preta.

A jovem acredita poder parar com a terapia. Terapia que nunca quis, mas se o noivo insiste, Tina faz. Ela faz tudo o que ele insiste. Faz para agradá-lo. Faz tanto que até o pai já começa a aprovar o matrimônio deles.

Matrimônio que ela tanto quer, e o noivo nem tanto. A mãe o desaprova, os dois. O casamento. O escolhido. A primeira vez que o viu, afirmou a Tina que o mesmo era veado e arrematou da flor, minha filha, esse rapaz gosta do espinho.

         Tina riu irônica Quem disse que você entende de orientação sexual! Fez sexo três vezes na vida e em todas emprenhou, entre um filho e outro, o intervalo de dez anos – deveria ter gritado à mãe.

         Mas o dia vai bem, Tina não quer relembrar o episódio. Deixa para lá e desfruta o efeito que a medicação proporciona. Sabe que cada um pensa o que quiser, cada um faz o que bem entender – e pára num Macdo, depois da entrevista de trabalho.

         Se for selecionada, será seu primeiro estágio – ela observa os sanduíches na prateleira e decide qual vai querer. Faz o pedido. Entre o som quase harmônico das bandejas de plástico esbarrando-se uma nas outras, pega seu brunch e senta-se.

Não se preocupa em saber quantas calorias tem o que abocanha, não tem gosto de nada, nem as fritas, nem o milk-shake, parece papelão, mas não é. Tudo fica tão gostoso com ketchup! – conclui, lambendo os lábios.

         Está 30 quilos acima do peso - tenta se justificar, mas não se convence. Prefere a obesidade à anorexia. É carismática e todos a adoram (nem se importam com a dificuldade que tem para se locomover). Acham-na graciosa!

         Mastiga vagarosamente, sente-se muito contente, quase eufórica, mesmo com o dia fechado, cinza. Sentada, observa através da parede de vidro da lanchonete os ônibus passarem, parece que é ela quem está em movimento.

Tina gosta de constatar o abalo na calçada. Na rua, transeuntes marcham rumo ao trabalho, vivenciando o dia - para ela, esse é o significado de vida Quem morreu, não caminha - pelo menos é o que sabe.

Suspira depois de dar um grande gole do leite batido com sorvete de chocolate. Está leve, se sente muito bem. Ao terminar, levanta-se, sorri aos atendentes. Desce da lanchonete e recebe a brisa gelada e matinal nas bochechas.

Seu nariz enrubesce, a face roseia. Gosta do vento gelado, para Tina, é como viver um filme de grande bilheteria, estrelado em vários cinemas, com um galã a sua espera, para uma última dança a dois. Está leve, leve.

         O mundo gira e ela está nessa embarcação. Gosta do refeito rodopiante que as pastilhas lhe causam. Pára no ponto de ônibus, a garoa se transforma em chuva, não sabe quando o vento deixou de bater, não sabe quando tudo deixou de ser.

O ônibus se aproxima. Algo começa a se esvair. Pressente que seu bom humor ficará na calçada. Acena com a mão, o ônibus pára exatamente onde ela está e abre a porta. Um outdoor de pernas é a sua vista.

A fila atrás dela, com mais de vinte, a segue. É ágil, tem o dinheiro trocado, o cobrador agradece. Antes de cruzar a catraca, o tempo nubla. A embarcação lota e o saco que ela não tem começa a encher.

Tina respira fundo e solta o ar, respira fundo e solta o ar. As janelas estão fechadas e embaçadas pelo funga-funga dos passageiros. Detesta coletividade e desatina. Atravessa para o outro lado. O lado sombrio do humor.

É baixinha e, na ponta dos pés, tenta puxar ar fresco que vem do vão minúsculo de uma janela entreaberta. Um homem alto se interpõe à sua frente. Ela tenta atravessar, movendo-se entre traseiros quentes no estreito corredor.

Sente o cheiro do suor, o cheiro da saliva, da cebola, do sal, de uma marmita com feijão. Sufocada, enojada, tem náuseas, nenhum odor pertence a ela. Todavia começa a impregnar sua pele.

         Quer abrir o teto solar, não entende porque fecham as janelas dos ônibus quando chove, não vai alagar, não vai naufragar, não estão em auto mar. Ela entala, mal consegue se afastar da catraca. Passageiros ainda entram.

         Seu peito está tenso, o coração dispara, quer exterminar a todos. Tenta se esquivar do ar viciado quando, por uma brecha, acredita ter visto o namorado O que ele faz aqui, não está viajando? –  e o perde de vista.

Sua situação piora, as mãos estão trêmulas. É espremida, esmagada pelos passageiros. Uma senhora à sua frente não se move, é inerte. Pede licença. A senhora lhe pergunta com sotaque desconhecido Vai descer?

         Tina lhe arremessa um olhar cortante, o tempo paralisa. Como assim ‘descer’? Acabei de subir? Como saltar do ônibus se nem saiu do lugar que eu subi? Quer esbofetear a estranha. Seu rosto liso e sereno de antes, borra-se, enruga-se e evoca o sarcasmo:

         — Não, o ônibus está parado!- diz como se preferisse saltar em movimento.

         A passageira desceria no próximo ponto e somente quis ser gentil, tranqüilizá-la, pois eliminaria a multidão para Tina passar, abriria caminho antes que a tempestade virasse tornado.

         Mas a pupila dilatada da jovem espelhava o que via - e novamente. Parecia ser seu ‘futuro’ noivo e no mesmo lugar de antes. Dessa vez, conseguiu focar e se atreveu a mirar. Era seu noivo!

Teve certeza enquanto o observou cochichar docilmente no ouvido de outro homem, magro, jovem, bonito e elegante, tudo o que ela não era. Parece um casal... É um casal! – um minuto de silêncio.

Sobe o eco de um deus irado na mente de Tina Pare o mundo que eu quero descer!!  Seus olhos viram, como se fosse estrabismo. Sente-se despencar, é macio, descer do mundo, confortável, mas não alcança o chão, tão plena está a nau.

Será que estou no limbo? – pensa fora de si e vê dropes vermelhos, azuis, amarelos, laranjas, flutuarem num lugar que nunca esteve, ouve ao longe a voz da mãe “não disse, não te disse?!!.

Tudo fica negro. As pálpebras fecham. Sem saber quanto tempo se passou, desperta, tendo como som de fundo grito de ambulância e sirene da polícia. Ainda está no ônibus que deve ter andado apenas um ponto, talvez mais, muito mais?

Tendo como vista canelas, meias, mocassins, barras de calça, um senhor a levanta com muito esforço. Apenas ele a percebeu desmaiar. Tina acreditaria ser um sonho ter visto o namorado se não o visse mais uma vez.

Na avenida povoada por arranha-céus, numa brecha entre as nuvens, o sol intensamente tangerino refletindo em 25 andares espelhados, seu noivo saltou do ônibus e caminha de mão dada com outro homem.

Ouve ao longe a voz da mãe “não disse, não te disse?!! E sacode o ônibus com seu grito, lembrando o cantor favorito “Pare o mundo que eu quero descer!” E ao longe a voz da mãe “não disse, não te disse?!!(FIM)

 

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