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O dia vai muito bem. O mundo
não está mal. O remédio faz efeito. Pensa Tina
que, antes, ingeria apenas pastilha laranja,
depois amarela, agora a azul seguida da
vermelha. Tudo tarja preta.
A jovem acredita poder parar com a terapia.
Terapia que nunca quis, mas se o noivo insiste,
Tina faz. Ela faz tudo o que ele insiste. Faz
para agradá-lo. Faz tanto que até o pai já
começa a aprovar o matrimônio deles.
Matrimônio que ela tanto quer, e o noivo nem
tanto. A mãe o desaprova, os dois. O casamento.
O escolhido. A primeira vez que o viu, afirmou a
Tina que o mesmo era veado e arrematou
da flor, minha filha, esse rapaz gosta do
espinho.
Tina riu irônica
Quem disse que você entende de orientação
sexual! Fez sexo três vezes na vida e em todas
emprenhou, entre um filho e outro, o intervalo
de dez anos – deveria ter gritado à mãe.
Mas o dia vai bem,
Tina não quer relembrar o episódio. Deixa para
lá e desfruta o efeito que a medicação
proporciona. Sabe que cada um pensa o que
quiser, cada um faz o que bem entender – e pára
num Macdo, depois da entrevista de
trabalho.
Se for selecionada,
será seu primeiro estágio – ela observa os
sanduíches na prateleira e decide qual vai
querer. Faz o pedido. Entre o som quase
harmônico das bandejas de plástico esbarrando-se
uma nas outras, pega seu brunch e
senta-se.
Não se preocupa em saber quantas calorias tem o
que abocanha, não tem gosto de nada, nem as
fritas, nem o milk-shake, parece papelão,
mas não é. Tudo fica tão gostoso com ketchup!
– conclui, lambendo os lábios.
Está 30 quilos acima
do peso - tenta se justificar, mas não se
convence. Prefere a obesidade à anorexia. É
carismática e todos a adoram (nem se importam
com a dificuldade que tem para se locomover).
Acham-na graciosa!
Mastiga
vagarosamente, sente-se muito contente, quase
eufórica, mesmo com o dia fechado, cinza.
Sentada, observa através da parede de vidro da
lanchonete os ônibus passarem, parece que é ela
quem está em movimento.
Tina gosta de constatar o abalo na calçada. Na
rua, transeuntes marcham rumo ao trabalho,
vivenciando o dia - para ela, esse é o significado
de vida Quem morreu, não caminha - pelo
menos é o que sabe.
Suspira depois de dar um grande gole do leite
batido com sorvete de chocolate. Está leve, se
sente muito bem. Ao terminar, levanta-se, sorri
aos atendentes. Desce da lanchonete e recebe a
brisa gelada e matinal nas bochechas.
Seu nariz enrubesce, a face roseia. Gosta
do vento gelado, para Tina, é como viver um
filme de grande bilheteria, estrelado em vários
cinemas, com um galã a sua espera, para uma
última dança a dois. Está leve, leve.
O mundo gira e ela
está nessa embarcação. Gosta do refeito
rodopiante que as pastilhas lhe causam. Pára no
ponto de ônibus, a garoa se transforma em chuva,
não sabe quando o vento deixou de bater, não
sabe quando tudo deixou de ser.
O ônibus se aproxima. Algo começa a se esvair.
Pressente que seu bom humor ficará na calçada.
Acena com a mão, o ônibus pára exatamente onde
ela está e abre a porta. Um outdoor de pernas é
a sua vista.
A fila atrás dela, com mais de vinte, a segue. É
ágil, tem o dinheiro trocado, o cobrador
agradece. Antes de cruzar a catraca, o tempo
nubla. A embarcação lota e o saco que ela não tem
começa a encher.
Tina respira fundo e solta o ar, respira fundo e
solta o ar. As janelas estão fechadas e
embaçadas pelo funga-funga dos passageiros.
Detesta coletividade e desatina. Atravessa para
o outro lado. O lado sombrio do humor.
É baixinha e, na ponta dos pés, tenta puxar ar
fresco que vem do vão minúsculo de uma janela
entreaberta. Um homem alto se interpõe à sua
frente. Ela tenta atravessar, movendo-se entre
traseiros quentes no estreito corredor.
Sente o cheiro do suor, o cheiro da saliva, da
cebola, do sal, de uma marmita com feijão.
Sufocada, enojada, tem náuseas, nenhum odor
pertence a ela. Todavia começa a impregnar sua
pele.
Quer abrir o teto
solar, não entende porque fecham as janelas dos
ônibus quando chove, não vai alagar, não vai
naufragar, não estão em auto mar. Ela entala,
mal consegue se afastar da catraca. Passageiros
ainda entram.
Seu peito está tenso,
o coração dispara, quer exterminar a todos.
Tenta se esquivar do ar viciado quando, por uma
brecha, acredita ter visto o namorado O que
ele faz aqui, não está viajando? – e o
perde de vista.
Sua situação piora, as mãos estão trêmulas. É
espremida, esmagada pelos passageiros. Uma
senhora à sua frente não se move, é inerte. Pede
licença. A senhora lhe pergunta com sotaque
desconhecido Vai descer?
Tina lhe arremessa um
olhar cortante, o tempo paralisa. Como assim
‘descer’? Acabei de subir? Como saltar do
ônibus se nem saiu do lugar que eu subi? Quer esbofetear
a estranha. Seu rosto liso e sereno de antes,
borra-se, enruga-se e evoca o sarcasmo:
— Não, o ônibus está
parado!- diz como se preferisse saltar em movimento.
A passageira desceria
no próximo ponto e somente quis ser gentil,
tranqüilizá-la, pois eliminaria a multidão para
Tina passar, abriria caminho antes que a
tempestade virasse tornado.
Mas a pupila dilatada da jovem
espelhava o que via - e novamente. Parecia ser
seu ‘futuro’ noivo e no mesmo lugar de antes.
Dessa vez, conseguiu focar e se atreveu a mirar.
Era seu noivo!
Teve certeza enquanto o observou cochichar
docilmente no ouvido de outro homem, magro,
jovem, bonito e elegante, tudo o que ela não
era. Parece um casal... É um casal! – um
minuto de silêncio.
Sobe o eco de um deus irado na mente de Tina
Pare o mundo que eu quero descer!! Seus
olhos viram, como se fosse estrabismo. Sente-se
despencar, é macio, descer do mundo,
confortável, mas não alcança o chão, tão plena
está a nau.
Será que estou no limbo?
– pensa fora de si e vê dropes vermelhos, azuis,
amarelos, laranjas, flutuarem num lugar que
nunca esteve, ouve ao longe a voz da mãe “não
disse, não te disse?!!.
Tudo fica negro. As pálpebras fecham. Sem
saber quanto tempo se passou, desperta, tendo
como som de fundo grito de ambulância e sirene
da polícia. Ainda está no ônibus que deve ter
andado apenas um ponto, talvez mais, muito mais?
Tendo como vista canelas, meias, mocassins,
barras de calça, um senhor a levanta com muito
esforço. Apenas ele a percebeu desmaiar. Tina acreditaria ser um sonho ter
visto o namorado se não o visse mais uma vez.
Na avenida povoada por arranha-céus, numa brecha
entre as nuvens, o sol intensamente tangerino
refletindo em 25 andares espelhados, seu noivo
saltou do ônibus e caminha de mão dada com outro
homem.
Ouve ao longe a voz da mãe “não disse, não te
disse?!! E sacode o ônibus com seu grito,
lembrando o cantor favorito “Pare o mundo que
eu quero descer!” E ao longe a voz da mãe
“não disse, não te disse?!!(FIM) |