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01/08/2006

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A Argentina foi o destaque da Buena Onda de produção cinematográfica na América Latina! Vale a pena revistar cinco principais filmes que deram inicío a hola e fizeram o cinema argentino renascer Por: Viviane Fuentes                                                                                           Fotos:  Divulgação                                                                  

 
 

Nas grandes crises sócio-econômicas surgem grandes ebulições e manifestações artístico-culturais, aprendemos isso nas aulas de História e, recentemente, pudemos vivenciar o exemplo com o cinema argentino.

A crise que assolou a Argentina levou fome às ruas, orgulhos à sarjeta. Um déficit gigantesco colocou o país no bueiro. Pessoas atravessaram o Plata para procurar emprego. Outras fingiram não haver crise. Cada um se virou, ou se afundou como pôde.

Em meio a esse tufão, o cinema argentino renasceu. Novos e bons diretores desabrocharam da Capital Federal. Atores de primeira linha atravessaram fronteiras e foram (re) conhecidos no mundo.

Seis anos depois do mau comportamento econômico do governo, apesar do país ainda sofrer a ressaca, aos poucos, ele submerge e vislumbra a idéia de já estar fora de perigo, afinal o número do PIB cresceu desde a última tempestade!

A Buena Onda, nome de batismo da nova safra de filmes latino-americanos, teve seu boom por volta de 2000, e quem mais se destacou na rebentação foram os diretores e os filmes argentinos. Desde então eles têm sido paparicados pela imprensa mundial.

Os precursores da hola? Os diretores Bielinsky, Piñeyro, Campanella, Sorin, Meza, Burman, Trapero, Martel, e muitos outros.

Em 35 mm, eles nos apresentaram histórias versadas no ser humano, daquelas que poderiam ocorrer em qualquer lugar do mundo, e utilizaram como pano de fundo, acortinados, os efeitos da crise no país e, principalmente, a pintura craquejada nas construções art noveau da charmosa Buenos Aires. Buscaram sua própria linguagem e foram além do eminente umbigo de autor - mesmo quando alguns temas partiram de experiências pessoais.

Talvez não tenha surgido nenhum Godard, nenhum Antonioni. “Pero que te importa?” A arte não vive só dos grandes, vive também dos bons. O mundo se faz de coisas simples. O cinema pode ou não traduzir isso. Como verdade ou como mentira. Que te parece, hombre?

   A ótima qualidade técnica na recente produção cinematográfica argentina se deve graças, em muito, às políticas de co-produção com países como França, Espanha e Alemanha e, é claro, que essa “coletividade” ajudou a projetar os filmes no mercado externo.

Tal é a boa onda que, recentemente, ocorreu o primeiro Festival Latino-Americano de Cinema de São Paulo no Memorial. Estudantes brasileiros rumam às faculdades de cinema bonoarenses. Tudo isso graças, em parte, à revigoração do cinema latino e principalmente argentino.

Tudo começou com o filme de Fábian Bielinsky (Bielinsky faleceu em 2006 em São Paulo de um ataque cardíaco), Nove Rainhas/2000. Muitos brasileiros, dentre eles 70 mil paulistanos, conheceram os atores Ricardo Darín e Gastón Pauls, depois de 1.300.000 espectadores argentinos terem assistido ao filme. 

Darín e Pauls encarnam o papel de dois golpistas de quinta que, em 24 horas, tentarão vender a coleção de selos valiosíssima, falsa é clara, chamada Nove Rainhas. Uma série de acontecimentos, que parece não terminar, os impede de atingir o objetivo - enquanto caminham por ruas de uma Buenos Aires estonada.

   Outro golpe tem também final trágico na película. Baseado em fatos reais, extraídos do livro de Ricardo Piglia, o filme Plata Quemada/2000, de Marcelo Piñeyro, conta o trágico percurso de dois delinqüentes que têm em comum o sexo, o gosto pelo mesmo sexo e inclinação para a violência.

Os atores Leonardo Sbaraglia e Eduardo Noriega – Noriega atuou em Abra los Ojos/1997 (Alejandro Amenábar) que originou Vanila Sky - entre imagens sujas, azuladas, ambientadas nos anos 60, protagonizam dois assaltantes - do amor à traição, do ódio à desgraça, eles vão até as últimas conseqüências até quemar la plata.

Em 2001,  volta Ricardo Darín em O Filho da Noiva como proprietário de um restaurante familiar que, diante da atual crise do país, não usa o mais o queijo mascarpone para fazer a original receita da sobremesa italiana, o tiramissu (tomo a liberdade da metáfora do próprio filme).

O filme de Juan José Campanella foi considerado um dos melhores filmes argentinos dos últimos tempos. O diretor tratou de maneira tocante um tema que lhe é familiar (sua mãe sofre do mal de Alzeheimer), e deu o papel a consagrada Norma Alejandro. O roteiro muito bem alinhavado mostra a delicadeza nas relações humanas.

Sustentado    por diálogos enxutos, Darín encarna um quarentão a beira de um ataque de nervos.  Há um monólogo, com tempo excepcional para o cinema, em que o personagem vivido pelo ator Héctor Alterio magnetiza a platéia ao relembrar como conheceu a “noiva”.

O Abraço Partido/2003 de Daniel Burman também mobilizou crítica e platéia. A locação do filme é centrada numa galeria de lojistas em Buenos Aires - que lembra as galerias de São Paulo. O jovem Ariel, interpretado pelo ator uruguaio Daniel Hendler, numa infância remota teve o abraço partido com o pai.

Com a câmera na mão, Burman entrelaça o dia-a-dia comum de lojistas em um bairro judeu, e mostra suas inseguranças, frustrações e pequenas alegrias. O protagonista Ariel quer tirar a    cidadania polonesa para conhecer o mundo e quem sabe talvez reencontrar o pai e sua história.

Mais um pouco além de Buenos Aires, pipocam idéias, espinhas, e as descobertas de cinco amigos adolescentes que vivem num pueblo argentino. Buenos Aires, 100 km/2004, filme de estréia do jovem diretor Pablo José Meza, retrata o desejo do jovem Esteban, aspirante a escritor, que sonha crescer em Buenos Aires.

O drama retrata a fase da vida, cheia de grandes descobertas, típica dos 11 anos. Meza também assinou o roteiro, sem pressa, passou mais de cinco anos para ser finalizá-lo. O filme é delicioso, e muito, pela falta de “grandes” conflitos que adultos adoram.

Enquanto aguardamos novos filmes argentinos serem lançados no Brasil, podemos assistir, nos emocionar e nos divertir ao rever (ou ver, para quem ainda não teve a oportunidade) aos filmes citados nesta matéria, a maioria já em DVD, que consagraram o novo cinema argentino!

Nota: Outros filmes não citados nesta matéria, mas muito importantes na nova safra de filmes latinos:os argentinos Família Rodante (Pablo Trapero) Tan de Repente (Diego Lerman), La Quimera de Los Héroes (Daniel Rosenfeld), Bar El Chino (Daniel Burak), Lugares Comunes (Adolfo Aristarim), O Cachorro (Carlos Sorin), Histórias Mínimas (Sorin), A Menina Santa (Lucrécia Martel). O mexicano Temporada de Patos (Fernando Eimbcke), o uruguaio Whisky (Juan Pablo Rebella - que faleceu recentemente, em 2006).

 

Clique e leia entrevista (em espanhol) do diretor de "Buenos Aires, 100 km", Pablo José Meza