
Nas grandes crises sócio-econômicas surgem grandes ebulições e
manifestações artístico-culturais, aprendemos isso nas aulas
de História e, recentemente, pudemos vivenciar o exemplo com
o cinema argentino.
A crise que assolou a Argentina levou fome às ruas, orgulhos à
sarjeta. Um déficit gigantesco colocou o país no bueiro. Pessoas atravessaram o
Plata para procurar emprego. Outras fingiram não haver
crise. Cada um se virou, ou se afundou como pôde.
Em meio a esse tufão,
o cinema argentino renasceu. Novos e bons diretores desabrocharam
da Capital Federal. Atores de primeira linha atravessaram
fronteiras e foram (re) conhecidos no mundo.
Seis anos depois do
mau comportamento econômico do
governo, apesar do país ainda sofrer a ressaca, aos poucos,
ele submerge e vislumbra a idéia de já estar fora de perigo,
afinal o número do PIB cresceu desde a última tempestade!
A Buena Onda, nome de batismo da nova safra de filmes
latino-americanos, teve seu boom por volta de 2000, e
quem mais se destacou na rebentação foram os diretores e os
filmes argentinos. Desde então eles têm sido paparicados
pela imprensa mundial.
Os precursores da hola? Os diretores Bielinsky, Piñeyro,
Campanella, Sorin, Meza, Burman, Trapero, Martel, e muitos
outros.
Em 35 mm,
eles nos apresentaram histórias versadas no ser humano,
daquelas que poderiam ocorrer em qualquer lugar do mundo, e
utilizaram como pano de fundo, acortinados,
os
efeitos da crise no país e, principalmente, a pintura
craquejada nas construções art noveau da
charmosa Buenos Aires. Buscaram
sua própria linguagem e foram além do eminente umbigo de
autor - mesmo quando alguns temas partiram de experiências
pessoais.
Talvez não tenha surgido nenhum Godard, nenhum Antonioni. “Pero
que te importa?” A arte não vive só dos grandes, vive
também dos bons. O mundo se faz de coisas simples. O cinema
pode ou não traduzir isso. Como verdade ou como mentira.
Que te parece, hombre?
A ótima qualidade técnica na recente produção cinematográfica
argentina se deve graças, em muito, às políticas de
co-produção com países como França, Espanha e Alemanha e, é
claro, que essa “coletividade” ajudou a projetar os filmes
no mercado externo.
Tal é a boa onda que, recentemente, ocorreu o primeiro Festival
Latino-Americano de Cinema de São Paulo no Memorial.
Estudantes brasileiros rumam às faculdades de cinema
bonoarenses. Tudo isso graças, em parte, à revigoração do
cinema latino e principalmente argentino.
Tudo
começou com o filme de Fábian Bielinsky (Bielinsky faleceu em 2006
em São Paulo de um ataque cardíaco), Nove Rainhas/2000.
Muitos brasileiros, dentre eles 70 mil paulistanos,
conheceram os atores Ricardo Darín e Gastón Pauls, depois de
1.300.000 espectadores argentinos terem assistido ao filme.
Darín e Pauls encarnam o papel de dois golpistas de quinta
que, em 24 horas, tentarão vender a coleção de selos
valiosíssima, falsa é clara, chamada Nove Rainhas. Uma série
de acontecimentos, que parece não terminar, os impede de
atingir o objetivo - enquanto caminham por ruas de uma
Buenos Aires estonada.
Outro golpe tem também final trágico na película. Baseado em fatos
reais, extraídos do livro
de Ricardo Piglia, o filme Plata Quemada/2000, de Marcelo
Piñeyro, conta o trágico percurso de dois delinqüentes que
têm em comum o sexo, o gosto pelo mesmo sexo e inclinação
para a violência.
Os atores Leonardo Sbaraglia e Eduardo Noriega – Noriega atuou em
Abra los Ojos/1997 (Alejandro Amenábar) que
originou Vanila Sky - entre imagens sujas, azuladas,
ambientadas nos anos 60, protagonizam dois assaltantes - do
amor à traição, do ódio à desgraça, eles vão até as últimas
conseqüências até quemar la plata.
Em 2001, volta Ricardo Darín em O Filho da Noiva como proprietário de
um restaurante familiar que, diante da atual crise do país,
não usa o mais o queijo mascarpone para fazer a original
receita da sobremesa italiana, o tiramissu (tomo a liberdade
da metáfora do próprio filme).
O filme de Juan José Campanella foi considerado um dos melhores
filmes argentinos dos últimos tempos. O diretor tratou de
maneira tocante um tema que lhe é familiar (sua mãe sofre do
mal de Alzeheimer), e deu o papel a consagrada Norma
Alejandro. O roteiro muito bem alinhavado mostra a
delicadeza nas relações humanas.
Sustentado
por diálogos enxutos, Darín encarna um quarentão a beira de um
ataque de nervos. Há um monólogo, com tempo excepcional
para o cinema, em que o personagem vivido pelo ator Héctor
Alterio magnetiza a platéia ao relembrar como conheceu a
“noiva”.
O Abraço Partido/2003
de Daniel Burman também mobilizou crítica e platéia. A
locação do filme é centrada numa galeria de lojistas em
Buenos Aires - que lembra
as galerias de São Paulo. O
jovem Ariel, interpretado pelo ator uruguaio Daniel Hendler,
numa infância remota teve o abraço partido com o pai.
Com a câmera na mão, Burman entrelaça o dia-a-dia comum de lojistas
em um bairro judeu, e mostra suas inseguranças, frustrações
e pequenas alegrias. O protagonista Ariel quer tirar a
cidadania polonesa para conhecer o mundo e quem sabe talvez
reencontrar o pai e sua história.
Mais um pouco além de Buenos Aires, pipocam idéias, espinhas, e as
descobertas de cinco amigos adolescentes que vivem num
pueblo argentino. Buenos Aires, 100 km/2004,
filme de estréia do jovem diretor Pablo José Meza, retrata o
desejo do jovem Esteban, aspirante a escritor, que sonha
crescer em Buenos Aires.
O drama retrata a fase da vida, cheia de grandes
descobertas, típica dos 11 anos. Meza também assinou o
roteiro, sem pressa, passou mais de cinco anos para ser
finalizá-lo. O filme é delicioso, e muito, pela falta de
“grandes” conflitos que adultos adoram.
Enquanto aguardamos novos filmes argentinos serem lançados no
Brasil, podemos assistir, nos emocionar e nos divertir ao
rever (ou ver, para quem ainda não teve a oportunidade) aos
filmes citados nesta matéria, a maioria já em DVD, que
consagraram o novo cinema argentino!
◘
Nota: Outros filmes não
citados nesta matéria, mas muito importantes na nova safra
de filmes latinos:os argentinos Família Rodante
(Pablo Trapero) Tan de Repente (Diego Lerman), La
Quimera de Los Héroes (Daniel Rosenfeld), Bar El
Chino (Daniel Burak), Lugares Comunes (Adolfo
Aristarim), O Cachorro (Carlos Sorin), Histórias Mínimas (Sorin),
A Menina Santa (Lucrécia Martel). O mexicano
Temporada de Patos (Fernando Eimbcke), o uruguaio Whisky
(Juan Pablo Rebella - que faleceu recentemente, em 2006).

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