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Lá que não é acolá!
Na Espanha, tem-se o hábito de misturar refrigerante ao uísque, Sprite
ou Coca-Cola – para os apreciadores de um bom Bourbon
isso é heresia, uísque se bebe puro ou on the rocks.
Na Itália, não se ousa fatiar o espaguete da mama,
somente o garfo, assim como fazem os camponeses desde os
primórdios – em outros países, a colher serve de apoio para
o garfo.
Pela etiqueta (universal) é deselegante passar o pão no fundo do prato.
Na França, capital símbolo dos bons modos, há um paradoxo,
seu povo sabe que o segredo de uma boa cozinha está no
molho, e se o molho é bom...
E que tal catchup na pizza? Entre São Paulo e Salvador, a opinião
diverge.
"Meu rei" e "Ô, meu"
A maioria dos paulistanos não tem o hábito de colocar catchup na pizza
“Isso não se faz” bradaria um conterrâneo indignado - sua
cidade porta grande influência italiana e é conhecida por
suas excelentes pizzarias.
Décadas atrás, as pizzarias de Salvador serviam pizza parecida como
aquelas de padaria - que são gostosas, mas não são pizzas.
Talvez por isso o hábito do baiano de colocar catchup na
pizza, para dar vida ao sabor duvidoso?
O condimento, a base de soja, descendente do chinês “ke-tsiap”, uma
espécie de molho para peixe, passou pela Malásia e Indonésia
e, somente ao chegar nos Estados Unidos, no século XIX, foi
acrescentado o tomate.
Molho vermelho que alguns suíços, quando crianças, usavam na comida que
não gostavam, e que os americanos, que têm sua comida
reconhecida como “sem gosto”, utilizam em quase tudo.
Um baiano da gema diria em tom espirituoso que seu povo usa catchup na
pizza porque não combina com óleo de dendê (senão era dendê
mesmo?!). O outro diria que quem nasce sob o signo da Bahia
gosta de misturar sabores.
Mas, para surpresa, paulistanos da Mooca revelariam que adoram pizza
com catchup e com mostarda também! Acrescentando que
cariocas adoram sua pizza avermelhada do condimento!
"Quetechape" ou "Quetechupe"?
O paulistano abrasileirou o som da palavra e diz “quetechupe”. Ao
contrário dele, o baiano pronuncia “quetechape”, com assento
imperialista, temperado com sotaque regional.
Correto ou incorreto? Apenas opção de conceito.
Pizzarias reinventadas em Salvador
Na virada deste século, duas ou três pizzarias ganharam destaque em
Salvador, surpreendendo pela qualidade da massa e pelos
ingredientes do recheio. Uma delas é a Cia da Pizza.
O responsável, o proprietário Antonio Portela, começou com uma portinha
em 2001, fazendo entrega em domicílio. A massa da pizza
cresceu e Portela botou mais lenha no fogão.
Em 2007, sua pizzaria ocuparia uma praça inteira no descolado bairro do
Rio Vermelho, e traria outros bares, fazendo do quadrilátero
um canto notívago dos soteropolitanos.
A Cia da Pizza apóia artistas baianos e, numa dessas parcerias,
deu-se o projeto Arte na Caixa. Sara Victória estampou sua
arte nas caixas de pizza que vão para clientes do
delivery.
Com pizzas premiadas em anos consecutivos (Revista
Veja/Salvador e da Revista Gula), a clientela assídua de
outros Estados aterrissa na capital e, do aeroporto, vai
direto para lá!
Se a casa estiver cheia, o cliente pode aguardar no Boteco da Espera,
tomando um trago de
pinga mineira ou refrescando-se com uma das famosas roskas (caipiroskas)
da Bahia.
Enquanto isso escolhe o que logo irá abocanhar. No
cardápio, sugestões clássicas, como Margherita, Quatro
Queijos, Pepperoni e, as inusitadas, Berinjela e Gorgonzola,
Carpaccio ou Cheddar.
Se quiser variar, peça o Panzone (uma espécie de sanduíche de pizza), a
coqueluche é o Gramute - em seu recheio, champignon,
presunto, gorgonzola e alho frito dão o tom.
Mas é bom reservar um espaço no estômago para a sobremesa. Existem
opções de pizza doce, como a de Rapadura. Além de sobremesas
como
Petit
Gateau e Merengata (morangos, suspiros, chantilly, e couli de
morango).
Pra quem está de passagem na cidade, turismo ou trabalho, ou
mora em Salvador, a Cia da Pizza é uma ótima opção para
comer pizza num ambiente descolado. Com ou sem catchup!
Cia da Pizza:
Praça Brigadeiro Faria Rocha, s/n.
www.companhiadapizza.com.br |
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Enquete
Por que o
baiano usa ctchup na pizza?
Leia no
Canapé
do Usuário
o que baianos, paulistanos e outros, responderam,
colaborando para esta matéria
Não deixe
de dar sua opinião também! |
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Leonardo de Sá é
soteropolitano, mora no Rio, tem relações com
ficcionistas paulistanos, e nos dá uma versão bem
humorada sobre catchup na pizza... |
Quetechape na pitsa é uma tecnologia avançada
que não deve ser tentada por iniciantes. Na
real, trata-se de uma tentativa de fazer a pitsa
ficar no quilo, ficar realmente bala, pronta
para que o camarada possa comer que só a porra,
até ficar empanzinado.
Outro ponto a destacarmos é o ato da aplicação
do produto, pois quando um miseravão picale a
porra na pitsa e enche a porra toda de
quetechape na frente de todo mundo, as
piriguetes presentes no recinto se ouriçam
todinhas e ficam logo de frete, tornando-se
então a iguaria um catalizador adequado aos
folguedos e arrodeios pré-calamingau.
Esse ritual está ainda longe de alcançar os
resultados procriatórios do preparo de uma
maniçoba, um sarapatéu ou um mocotó - produtos
nativos mais refinados cujo consumo é sempre
mais indicado nas condições de temperatura e
pressão baianos - mas ainda causa certo impacto,
principalmente sobre as turistas gringas.
Quanto à nomenclatura, acredito que seja uma
reação anti-imperialista contra a pronúncia
lusitana. Manoel toda vez que ia no supermercado
Paes Mendonça gritava pra Maria entre as
gôndolas: -Ó Maria, queres quetechupe? E ela
respondia: - Aqui não, ô animal! Tem muita
gente!
Isso não ficou bem visto nos lares baianos.
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