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Ao manter-me no cárcere de sua mente - em doses
claustrofóbicas, parede por parede - a tinta não
borra. Essa mulher vai abster-me da gula,
luxúria, vai arrancar meu juízo, pés, cabelos
pra longe do corpo que ainda nem é meu.
Estou louca, tarada. O papel está em branco!
Não, não sou lésbica. Não sou ela, nem é ela
quem eu quero. Tampouco existo, mas salivo e
sonho de olhos abertos que me deito com um
homem, rolo com outro, e acordo com um terceiro.
Acaricio Gael, beijo Jude e, no final, me deito
sobre o corpo de Edward Norton. Tudo na mesma
seqüência. Meu corpo é a faca e o deles a
manteiga. Deslizo em pele macia e escorregadia
de homens com torso de mármore. Esse é o the
end.
O meu destino? Homens de estatura média e baixa,
diferente do gosto da autora que ainda não me
escreveu, a vadia gosta apenas de homens de
países altos. Sim, da autora, ainda sou um
personagem, ainda não existo. E só penso em...
Homem, homem, homem. Não consigo parar de
murmurar a palavra “homem” - é tão sexy! No
plural, melhor ainda. Homens. Homens. Homens.
Multiplicando, chego ao Éden, banhada por
hormônios celestiais, quase afogada!
Se alguém nesse imenso oceano de letras receber
minha mensagem numa garrafa de Dom Perrignon,
por favor, leve mais duas à minha autora, essa
egoísta, que somente se preocupa com sentimentos
próprios, fugazes e à deriva.
Apliquem o fluído borbulhante direto na veia
dela – mas certifique-se de a bebida estar
gelada - talvez se anime. Champanhe é a bebida
do riso sem ter que ter motivo, quem sabe a
ressuscite do ostracismo paralítico em que se
encontra.
Quem diria que é uma das melhores roteiristas
de Hollywood? Nos últimos meses, mal sai
do apartamento vazio e enorme com vista para a
baía de Manhattan. Zapeia canais de TV e, quando
se anima, abre a porta da geladeira sem pegar
nada. Bloqueio criativo?
Parece alma penada, anda de um lado para outro
ao invés de me escrever, de fazer de mim uma
realização. E, juro, eu não sou ela. E somente
seus dedos mágicos poderiam me criar, me moldar.
Maldita ególatra! Me defina, mas não me definhe!
Tenho um encontro marcado. Deitar-me sobre o
corpo alvo, cristal Baccarat, de Edward Norton.
Grito mais uma vez. Quero me deitar com Edward
Norton! Sai da inércia. Exorciza-me desse mundo
negro e cão que tenho habitado!
A pouco, vi Edwie através dos olhos dela na TV,
mas logo mudou o canal para um programa de
pegadinha de animais! Eu gritei “Ai, isso não,
volta!” E ainda sugeri “ Vamos ao cinema, acabou
de estrear um filme em que
Edwie
faz o papel de super herói”.
Poderia ser divertido. Talvez eu o visse sem
camisa, talvez eu o espiasse seminu, talvez eu o
mordesse cru ou mal passado... Preciso ser viva.
Grito “Vou deitar-me deitar com Edward Norton!!
Espernearia, se tivesse pernas.
O som estridente talvez cause enxaqueca a
ilustre roteirista –
tenho minhas sedes, meus vermes e meus
desejos autorais – grito bem atrás de cérebro
dela, do lado emocional
“Deixe-me contar minha história!”.
O berro parece surtir efeito. Ela se levanta
do sofá e, no assoalho branco e gelado, caminha
até o banheiro, pés descalços com unhas pintadas
de vermelho (estranho, apenas as do pé
esquerdo), pega um frasco de comprimidos e
engole algumas pastilhas.
Um grande blecaute toma conta dela e de mim
também. Quando a energia volta, estamos em outro
ambiente. Numa clínica. Pessoas com aventais
longos e brancos têm traseiros expostos e mais
parecem mortas que vivas. Na verdade, eu sou o
ser mais pulsante aqui - e nem existo.
Isso não me impede de desejar Edward Norton,
onde quer que eu esteja – é minha sina.
Reproduzo continuamente sua voz de veludo que me
provoca delicadas cócegas nos ouvidos e, ainda em inglês, oh,
please!
Minha autora o conhece, já escreveu um roteiro
para ele, Norton a respeita e, de vez em quando,
trocam e-mails cordiais. Por que catso então não
escreve um personagem pensando nele, ou seja, em
mim? Ele e eu.
Mais uma vez blecaute. Será que ela desmaiou ou
vou-me embora de vez sem nunca ter vindo? Talvez
eu tenha tido um orgasmo. Será? Será que é
assim, como os franceses dizem, uma “pequena
morte”?
Ouço o pensamento da minha roteirista. É morno.
Não sei quando retornamos ao seu apartamento em
Manhattan. Pelo visto, thank god, não se
suicidou. O dia está lindo, azul e reluzente, as
cortinas balançam ao vento e, pelo reflexo de um
monitor, vejo o sorriso de minha roteirista.
O telefone toca. Quando ela atende, reconheço a
voz do outro lado da linha. Gargalho baixinho.
Veludo, carícias em meu tímpano. Tenho que sair
por uma de suas orelhas, talvez consiga escapar.
A força que empenho é imensa.
Ela está sentada no chão, entre almofadas,
teclando seu velho lap top, e descubro certo
nome digitado no papel, com o meu perfil exato.
Sim, não tenho dúvidas, sou eu! Sou eu, ao lado
de um P.S. com as iniciais de Edward Norton.
No
montante de papéis impressos ergue-se um roteiro, quase finalizado,
nato ao sucesso. Na última página avulsa, leio
To be continued.
(continua, num próximo conto neurótico) |