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Casas
coloniais, cores alegres, de Tiradentes |
Passeando num dia ensolarado em Tiradentes - Diário de 15/08/05, terça-feira
Mais um sol se levanta e o passeio se apresenta. Enquanto arrastamos
nossas chinelas sobre pedras capistranas e descansamos os traseiros,
a barroca Tiradentes nos conta um pouquinho de sua história.
De arraial a cidade. De rei de Portugal a herói brasileiro. Assim se
fez a urbe de Tiradentes. Fundada por paulistanos no início do
século XVIII, ela esteve em intensa ebulição no eldorado,
tornando-se importante centro produtor em Minas Gerais.
Chamou-se Santo Antonio do Rio das Mortes e Arraial Velho, também foi
nomeada Vila de São José,
em 1718, para homenagear o futuro rei de Portugal e, em1860, atingiu a
excelência, de vila passou à categoria de cidade.
Com a proclamação da república, em 1889, torna-se, por fim, Tiradentes.
De lá até os dias de hoje, a cidade mantém o mesmo brio da época do
Império, cortejada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
desde 1938.
E lá estávamos, Mathieu e eu, a fotografar um berço de idéias liberais,
antro dos revolucionários da Inconfidência Mineira e envolto da
onipotente muralha verde, a Serra de São José.
Visitamos a Igreja Nossa Senhora das Mercês e a Nossa Senhora do
Rosário. Rezamos para almas que não conhecíamos, no cemitério que
não tem nada de fúnebre e, constatamos que suas igrejas e capelas
são irmãs rococós das de Ouro Preto.
Entramos no Museu Padre Toledo que mais valeu pela força de sua
história, casa onde foi tramada a Inconfidência e que abrigou
revolucionários, presos e, hoje, guarda algumas relíquias dos
costumes da época.
Diz a história que, depois que o alferes e dentista Joaquim José da
Silva Xavier foi preso, Padre Toledo continuou em vão a estimular
suas “inconfidências”, mas teve que fugir da polícia, sendo
capturado atrás da Serra São José.
Séculos depois, a cidade marcada tanto pelo ouro quanto pelo sangue, é
um lugar para curtir, se instruir, descansar, comer bem e andar de
trem! Mas infelizmente não pudemos desfrutar da Maria Fumaça.
Esse trem movido a vapor é o único no mundo com bitola de 76 cm, diz a
propaganda, e somente funciona aos finais de semana e feriados.
Estávamos numa terça-feira. Uma pena.
Não por isso, deixamos de aproveitar o dia ensolarado. Percorremos as
ruas do centro e dos arredores, decoradas em arquitetura colonial,
casas coloridas, portas e janelas, revisitando cada cantinho.
Por toda Tiradentes transitam cachorros, um mais peculiar que o outro,
andam em bandos, em duplas ou solitários e, em seu céu, aves de
ferro. Tiradentes é a cidade não-metropolitana com maior número de
pousos e decolagens de helicópteros no Brasil.
Curiosidades a parte, logo depois do meio-dia, almoçamos num
restaurante por quilo com comida e doces típicos mineiros. Não nos
esbaldamos tanto quanto gostaríamos para não cair na sesta de
pronto.
Pela tarde, vistamos uma loja de cacarecos e antiguidades - mofo e
charme - e se não estivéssemos de bicicleta, cogitaria levar uma
das máquinas datilográficas do arco da velha que vimos lá.
Ao anoitecer, antes de voltarmos à pousada para acordarmos no dia
seguinte, antes ainda de jantarmos uma massa com direito a uma
tacinha de vinho tinto, fomos à farmácia e apelamos para mais
expectorantes e remédios que dizem curar a gripe.
Quarto dia de pedal - 16/08/05, quarta-feira
Recuperamos a muda de roupas que, no dia anterior, demos à lavanderia
da pousada – o tempo foi suficiente para secá-las – assim,
aproveitamos para pôr ordem em nossos alforjes antes do café da
manhã.
Mais um dia de sol e afável. Dormimos em lençol alvo, colchão
resistente, cama colonial, a um preço justo. Apesar da gripe, nos
sentíamos bem dispostos, finalizamos as bagagens e, vestidos de
ciclistas, fomos nos nutrir para mais um dia de pedal.
Destino: Caquende. Havíamos tomado algumas informações do caminho a
seguir na Secretaria de Turismo da Tiradentes e com alguns
tiradentenses. Parecia ser fácil, bem sinalizado, talvez mais
asfalto do que terra no percurso.
O curioso é que encontramos muitas pessoas que desconheciam a rota da
ER, tampouco sabiam do Projeto. Algumas pessoas chegavam a contar
lendas sobre o caminho. “Ele existe mesmo? Se sim, é segredado”.
Notamos falhas de informação e na abrangência da Instituição. O que é
uma pena. Mas pera lá! Unir globalização e tradição não dever ser
muito fácil. Ainda mais sem verba, num Projeto recente...
Considerando a falta de um mapa para ciclistas com referências de
fontes de água e altitude e um mapa rodoviário, como saber a rota a
seguir? O inesperado faz parte do prazer da viagem, as inconstâncias
pegam bem - nos atemos ao que tínhamos e ao que estava à nossa
frente.
Segredado ou não o Caminho Velho do Ouro, era certo de que o estávamos
trilhando, e sem GPS! Antes das nove, começamos mais um dia de
pedal, na primeira hora, as subidas pareciam rudes, mas não eram
tanto, o
corpo é que esfria com apenas um dia sem pedalar.
Percorremos boa parte na BR 265 até entrar na porção de terra, a partir
daí, fomos nos esquecendo da civilização: montanhas suaves, largas
curvas, céu azul recheado de algodão doce - apesar do calor,
sentíamos o frescor das represas ainda escondidas.
Em certo trecho, passamos por baixo de uma estrada de ferro e
justamente na hora em que o trem de transporte deslizava por ela – o
ruído dele no meio da natureza foi uma experiência aparentemente
tola, mas alucinante.
Paramos para fotografar uma plantação de café e, nessa parte do
trajeto, a cor da terra era muito vermelha, de atear fogo nos olhos,
com Ipês rosa e amarelo, grávidos, à beira da estrada. Mathieu não
tirou o sorriso dos lábios.
O pedal foi fácil, não encontramos muitas dificuldades técnicas na
estrada, exceto os mata-burros nas transversais - mas ciclistas
atentos que somos, não empacamos com a roda em nenhum deles –
estrategicamente, se posicionavam após descida ou curva.
Por fim, 58 km depois da nossa saída de Tiradentes, chegamos a Caquende
e, por incrível que pareça, atravessamos o vilarejo em minutos.
Paramos a beira da represa para
observar a paisagem.
A balsa propulsada por um motor de trator se aproximava em nossa
direção e, em cinco minutos, encostou-se à nossa praia, apenas um
passageiro saltou. Um cavalo que, sozinho, seguiu para Caquende.
Fizemos o inverso. Subimos na balsa.
Antes de descer à região, vendo-a de cima dos morros, o contorno das
represas forma o desenho de um saco, por isso o nome do lugar, do
outro lado da margem e onde pernoitaríamos, chamava-se Capela do
Saco.
Ao chegar, sem esforço de procura, avistamos um bar com a seguinte
inscrição num quadro negro “quarto para ciclistas”. Seu Muchacho, o
patrão, possuía olhos esbugalhados, e nos foi muito cordial.
Paramos, por enquanto, para tomar um refrigerante. O patrão se ofereceu
para fazer um Miojo - pouco antes, havíamos comentado que massa caia
bem aos ciclistas - todavia preferimos comer uma empanada já pronta.
Seu Muchacho disse que nos prepararia um jantar, simpatizamos com sua
figura e, percebendo não haver muita opção por aquelas bandas,
aceitamos de bom grado o convite pago.
Nos sentimos seguros em deixar a tandem
encostada no muro do bar
com as bagagens e fomos dar uma voltinha, esticar as pernas, soltar os
braços, conhecer o povoado.
Arranjamos amigos, dois cachorros pequenos, ensebados e remelentos,
que foram nossos guias pela Capela - os apelidei de Tico e Teco.
O vilarejo se resumia numa pequena enseada, algumas casas, galinhas e
vacas na beira da represa.
Paramos num pesqueiro, curtindo o ócio. Mathieu se deitou e eu afundei
os pés na água. Calados, observávamos o pôr-do-sol preencher o céu.
Ao longe, um senhor remava o barco, atravessando o espelho d’ água
alaranjado.
Enquanto escurecia, muito à vontade, cochilamos com olhos entreabertos
e nos esquecemos de nós mesmos e de nos perguntar qual era o sentido
da vida, pois naquele momento pensávamos saber.
Candura.
Depois de dois quartos de horas de sesta, acordamos do pesqueiro
e fomos conhecer o quartinho de Seu Muchacho - o hotel não era cinco
estrelas, mas tinha um ótimo arroz e feijão - o que era tudo o que
precisávamos para fechar o dia com cadência.◘
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